26/08/2026
Saúde NewsNotícias de saúde com contexto e evidência

Saúde Pública

OMS mantém emergência da pólio e prorroga recomendações por 3 meses

A decisão de 21 de agosto mantém o alerta internacional, enquanto recomendações temporárias seguem por três meses com regras mais segmentadas.

Por4 min
7 fontes checadas
Compartilhar no WhatsApp — abre em nova guia
Imagem ilustrativa da reportagem: OMS mantém emergência da pólio e prorroga recomendações por 3 meses

A Organização Mundial da Saúde (OMS) manteve em 21 de agosto de 2026 a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) pela disseminação do poliovírus, em decisão divulgada quatro dias depois. O comitê de emergência recomendou a prorrogação das recomendações temporárias por mais três meses, prazo que não foi atribuído pela OMS à manutenção da própria emergência.

Transmissão do vírus selvagem segue em dois países

A emergência não é nova: a OMS a declarou pela primeira vez em 5 de maio de 2014, diante do risco de o poliovírus cruzar fronteiras. Na rodada mais recente, o comitê concluiu que o evento não preenche os critérios da categoria de “emergência pandêmica” criada no Regulamento Sanitário Internacional.

Desde a reunião anterior, em janeiro de 2026, foram notificados 16 casos adicionais de poliovírus selvagem tipo 1: 14 no Afeganistão e dois no Paquistão. Onze dos 14 casos afegãos, porém, tiveram início de sintomas em 2025; considerando somente os sintomas iniciados em 2026 até a análise da OMS, eram quatro casos — três no Afeganistão e um no Paquistão.

A vigilância em esgoto também sustentou a avaliação de risco. Até 30 de abril, a OMS contabilizou 74 amostras ambientais positivas para o vírus selvagem em 2026, sendo 17 no Afeganistão e 57 no Paquistão. Segundo o comitê, a transmissão persistia no sul afegão, no sul da província paquistanesa de Khyber Pakhtunkhwa e em Karachi; os dois países seguem como os únicos com circulação endêmica do vírus selvagem, conforme também registra o CDC.

Variantes derivadas da vacina mantêm risco internacional

O alerta não se baseia apenas no vírus selvagem. Até 30 de abril, a OMS registrou 32 casos e 27 detecções ambientais de poliovírus circulante derivado da vacina em 12 países, sobretudo do tipo 2; em todo o ano de 2025, haviam sido 238 casos e 247 detecções em 30 países.

Essas variantes não indicam falha das vacinas. A vacina oral contra a pólio usa vírus atenuado, que pode permanecer em circulação por longo período em comunidades com baixa cobertura, acumular mutações e recuperar a capacidade de provocar paralisia. A OMS classifica o evento como raro e associado a lacunas na imunização coletiva.

Um estudo de vigilância global publicado no New England Journal of Medicine avaliou 495.035 crianças com paralisia flácida aguda, em 118 países, e 8.528 amostras de esgoto de quatro países de alto risco. Nele, cada queda absoluta de 10 pontos percentuais na cobertura de rotina foi associada a aumento de 64% na chance de surtos por variante tipo 2; essa associação não prova que uma queda de cobertura, isoladamente, cause cada surto. O trabalho recebeu financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates e da OMS.

A organização também relatou ao menos 13 importações internacionais documentadas de variantes entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, com conexões genéticas entre surtos na África, na Europa e no Pacífico. Em agosto, as recomendações passaram a diferenciar de modo mais explícito os locais que detectaram uma importação daqueles que têm transmissão local e risco de espalhamento internacional.

O que muda no Brasil

O Brasil não está na lista de Estados submetidos às recomendações temporárias da OMS. O último caso brasileiro de poliovírus selvagem ocorreu em 1989, em Souza, na Paraíba, mas o Ministério da Saúde mantém o alerta para o risco de reintrodução do vírus, não para uma transmissão endêmica atual documentada no país.

A cobertura nacional contra pólio chegou a 90,3% em 2024, acima dos 77,2% de 2022 e dos 88,6% de 2023, mas 4,7 pontos percentuais abaixo da meta de 95%. Desde novembro de 2024, o SUS utiliza exclusivamente a vacina inativada injetável, e o calendário divulgado em agosto de 2026 prevê três doses no primeiro semestre de vida e reforços aos 15 meses e aos 4 anos.

As recomendações internacionais de vacinação adicional, documentação e eventual restrição de saída se dirigem a residentes e visitantes de longa permanência de países infectados, conforme o grau de transmissão. Elas não criam uma nova obrigação geral para quem deixa o Brasil; o Ministério da Saúde recomenda que viajantes residentes no país mantenham a vacinação atualizada e emitam o Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia referente à última dose contra pólio.

O que os dados não permitem concluir

A melhora recente nos casos e nas amostras positivas não demonstra, por si só, que os programas de imunização tenham qualidade suficiente para erradicar o vírus, como o próprio comitê da OMS ressaltou. Conflitos, insegurança, deslocamentos populacionais, falta de acesso a crianças e falhas na vacinação de rotina seguem entre os obstáculos apontados pela organização, que estima um déficit financeiro de quase 30% em seu programa de erradicação.

Há ainda uma limitação importante nos números divulgados. Embora a decisão tenha sido tomada em agosto, as tabelas globais sobre variantes derivadas da vacina usam dados disponíveis na sede da OMS somente até 30 de abril de 2026, uma defasagem de quase quatro meses. A manutenção da emergência não significa retorno da pólio ao Brasil, e a prorrogação de três meses das recomendações temporárias não permite prever quando a transmissão global será interrompida.

Transparência desta reportagem

7

fontes consultadas

7

fontes primárias

4

etapas de checagem

Esta reportagem foi produzida com apoio de inteligência artificial na apuração e na redação. Douglas Machado responde pela linha editorial humana; isso não equivale a revisão clínica individual. As regras públicas proíbem citar qualquer fonte não aberta durante a apuração. Leia o método completo.

Fontes desta reportagem

7 no total · 7 primárias
  1. 01
  2. 02
    Fonte primárianejm.org
    The Epidemiology of Poliovirus Vaccine-Derived Poliovirus Outbreaks

    New England Journal of Medicine

  3. 03
    Documento oficialwho.int
    Poliovirus IHR Emergency Committee

    World Health Organization

  4. 04
    Documento oficialgov.br
    Poliomyelitis: situation epidemiological

    Ministério da Saúde

  5. 05
    Documento oficialgov.br
    Multivacinação 2025: estratégia para atualização da caderneta

    Ministério da Saúde

  6. 06
  7. 07
    Documento oficialcdc.gov
    Global Polio Vaccination

    Centers for Disease Control and Prevention

Conteúdo informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Encontrou um erro? Fale com a redação.

Continue lendo

Outras reportagens

Boletim Saúde News

A edição do dia, sem ruído

Entre na lista de lançamento do boletim diário. Para acompanhar agora, use o RSS geral ou escolha uma editoria.