A Organização Mundial da Saúde (OMS) manteve em 21 de agosto de 2026 a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) pela disseminação do poliovírus, em decisão divulgada quatro dias depois. O comitê de emergência recomendou a prorrogação das recomendações temporárias por mais três meses, prazo que não foi atribuído pela OMS à manutenção da própria emergência.
Transmissão do vírus selvagem segue em dois países
A emergência não é nova: a OMS a declarou pela primeira vez em 5 de maio de 2014, diante do risco de o poliovírus cruzar fronteiras. Na rodada mais recente, o comitê concluiu que o evento não preenche os critérios da categoria de “emergência pandêmica” criada no Regulamento Sanitário Internacional.
Desde a reunião anterior, em janeiro de 2026, foram notificados 16 casos adicionais de poliovírus selvagem tipo 1: 14 no Afeganistão e dois no Paquistão. Onze dos 14 casos afegãos, porém, tiveram início de sintomas em 2025; considerando somente os sintomas iniciados em 2026 até a análise da OMS, eram quatro casos — três no Afeganistão e um no Paquistão.
A vigilância em esgoto também sustentou a avaliação de risco. Até 30 de abril, a OMS contabilizou 74 amostras ambientais positivas para o vírus selvagem em 2026, sendo 17 no Afeganistão e 57 no Paquistão. Segundo o comitê, a transmissão persistia no sul afegão, no sul da província paquistanesa de Khyber Pakhtunkhwa e em Karachi; os dois países seguem como os únicos com circulação endêmica do vírus selvagem, conforme também registra o CDC.
Variantes derivadas da vacina mantêm risco internacional
O alerta não se baseia apenas no vírus selvagem. Até 30 de abril, a OMS registrou 32 casos e 27 detecções ambientais de poliovírus circulante derivado da vacina em 12 países, sobretudo do tipo 2; em todo o ano de 2025, haviam sido 238 casos e 247 detecções em 30 países.
Essas variantes não indicam falha das vacinas. A vacina oral contra a pólio usa vírus atenuado, que pode permanecer em circulação por longo período em comunidades com baixa cobertura, acumular mutações e recuperar a capacidade de provocar paralisia. A OMS classifica o evento como raro e associado a lacunas na imunização coletiva.
Um estudo de vigilância global publicado no New England Journal of Medicine avaliou 495.035 crianças com paralisia flácida aguda, em 118 países, e 8.528 amostras de esgoto de quatro países de alto risco. Nele, cada queda absoluta de 10 pontos percentuais na cobertura de rotina foi associada a aumento de 64% na chance de surtos por variante tipo 2; essa associação não prova que uma queda de cobertura, isoladamente, cause cada surto. O trabalho recebeu financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates e da OMS.



