Variações de curto prazo no PM2,5 atribuído a queimadas foram associadas a custos hospitalares diários agregados mais altos e a mais dias de permanência em 449 regiões do Brasil, entre 1º de janeiro de 2000 e 31 de dezembro de 2019. Publicado em 7 de julho de 2026 na Nature Communications, o trabalho analisou 184,46 milhões de internações — e não pessoas únicas — em áreas que reuniam cerca de 78% da população brasileira. Leia o estudo
Como a pesquisa estimou o efeito da fumaça
A unidade de análise foi o dia-região: os pesquisadores reuniram 3.279.945 observações diárias em regiões imediatas, somando gastos hospitalares e dias de internação em vez de acompanhar a trajetória clínica de cada paciente. Os registros foram agrupados em todas as causas, doenças respiratórias e cardiovasculares, além de diagnósticos como asma, pneumonia, DPOC, insuficiência cardíaca, doença isquêmica do coração e AVC. Veja os métodos e os grupos analisados
A exposição foi estimada diariamente, com ponderação pela população, em uma grade de 0,25° × 0,25°, e considerou a média entre o dia da internação e o anterior. O modelo combinou dados de emissões, meteorologia, transporte químico atmosférico e calibração com estações de monitoramento.
Como se trata de pesquisa observacional, os autores usaram um desenho de caso-cruzado — que compara dias distintos na mesma região — e a velocidade local do vento como variável instrumental. A hipótese é que a dispersão da fumaça pelo vento produza parte da variação da exposição menos ligada a outros fatores sociais e sanitários que também podem afetar hospitalizações.
Efeitos foram mais altos nas doenças respiratórias
A cada aumento de 1 µg/m³ no PM2,5 de queimadas na janela de dois dias, o custo hospitalar diário agregado aumentou 0,36% para todas as causas, com intervalo de confiança de 95% de 0,22% a 0,50%. Para doenças respiratórias, a alta estimada foi de 1,59%, com IC95% de 1,30% a 1,87%; para cardiovasculares, foi de 0,25%, com IC95% de 0,02% a 0,48%, resultado que exige mais cautela por estar próximo do valor nulo.
No total de dias de permanência, a estimativa foi de 0,63% para todas as causas, 1,72% para doenças respiratórias e 0,68% para cardiovasculares. A asma teve a maior elevação proporcional tanto em custos, 2,74%, quanto em permanência, 2,60%; para pneumonia, os dias de internação aumentaram 1,81%.
O grupo de 0 a 19 anos apresentou o maior efeito para todas as causas: 0,76% nos custos e 0,94% nos dias de permanência por 1 µg/m³ adicional. Essa faixa reúne crianças, adolescentes e jovens de 19 anos, portanto não descreve somente a população infantil.
O que muda no Brasil
No período analisado, a média nacional estimada de PM2,5 de queimadas foi de 3,3 µg/m³. O Sul registrou a média mais alta, 6,8 µg/m³, enquanto o Nordeste teve a menor, 2,1 µg/m³; são estimativas do modelo de exposição, não medições de uma estação isolada.
Os autores atribuíram à exposição US$ 755,6 milhões, em dólares de 2019, ou 0,96% dos custos observados por todas as causas ao longo dos 20 anos. Também estimaram 30,75 milhões de dias de permanência atribuíveis, o equivalente a cerca de 1,54 milhão de dias por ano quando se divide o total por 20; isso não é uma projeção para 2026. Os valores de causas respiratórias e cardiovasculares não devem ser somados ao total, porque ambos estão incluídos no conjunto de todas as causas.
A direção do achado respiratório é coerente com evidência externa, embora responda a outro desfecho. Um estudo brasileiro de 2021 encontrou aumento de 23% nas internações respiratórias e de 21% nas circulatórias durante ondas de queimadas entre 2008 e 2018, mas não mediu custos nem duração das internações. Uma metanálise estimou aumento de 0,25% nas hospitalizações respiratórias por 1 µg/m³ de PM2,5 de queimadas e não encontrou resultado estatisticamente significativo para hospitalizações cardiovasculares.
O que o estudo não prova
Os resultados não demonstram que uma pessoa específica tenha ficado mais tempo internada ou gerado maior gasto por causa de um episódio individual de fumaça. A análise trabalha com exposições modeladas e resultados agregados por dia e região, e sua interpretação causal depende, entre outros pontos, da premissa de que a velocidade do vento afete os desfechos principalmente por meio da dispersão da fumaça.
O achado sobre custos e tempo de permanência ainda não tem replicação independente identificada em outra base brasileira ou em desenho comparável. Além disso, as áreas ausentes foram excluídas sobretudo por dados de custo incompletos, com parte das lacunas em regiões pouco povoadas do Norte, e os dados terminam em 2019. Veja as limitações relatadas pelos autores
Os registros são vinculados ao SIH/SUS, sistema que processa internações financiadas pelo SUS e Autorizações de Internação Hospitalar para pagamento de estabelecimentos públicos, conveniados ou contratados. A documentação do sistema confirma esse escopo administrativo, mas o estudo não permite tratar o valor calculado como custo econômico completo de todas as internações brasileiras, incluindo atendimento privado, seguros e desembolso direto de pacientes.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que a fumaça de incêndios pode agravar problemas respiratórios e desencadear crises de asma, mas descreve como menos conclusiva a evidência para alguns desfechos cardiovasculares. Esse contexto reforça por que o resultado respiratório é o ponto mais consistente da pesquisa, sem transformar as estimativas brasileiras de custo e permanência em conclusão definitiva.
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