O Brasil tinha 24 casos confirmados de sarampo em 2026 até 13 de agosto, enquanto o risco regional nas Américas permanecia classificado como muito alto e a cobertura da segunda dose da tríplice viral ficava abaixo da meta nacional.
O alerta regional e os casos no Brasil
A atualização do Ministério da Saúde sobre o alerta epidemiológico registrou 22.324 casos confirmados e 38 mortes por sarampo em 17 países ou territórios das Américas até 13 de junho de 2026. Segundo a pasta, esse foi o maior volume regional de casos em 22 anos no recorte informado.
O alerta não é um estudo clínico com participantes recrutados, grupo de comparação ou acompanhamento individual. Trata-se de um documento de vigilância que reúne casos confirmados reportados pelos países e territórios, e cuja nota brasileira recomenda reforçar vacinação, vigilância e resposta rápida a surtos.
Dos 24 casos brasileiros contabilizados até 13 de agosto, três estavam encerrados sem risco de disseminação e 21 permaneciam sob acompanhamento no estado de São Paulo: um em Guarulhos, dois em São Bernardo do Campo e 18 na capital. O próprio Ministério classifica esses dados como preliminares e sujeitos a revisão.
O país preserva a recertificação de eliminação da circulação endêmica do sarampo, obtida em novembro de 2024. A condição não significa ausência absoluta de infecções: casos importados e cadeias ligadas à importação podem ocorrer sem que a transmissão endêmica sustentada tenha sido restabelecida no território brasileiro.
Viagens introduzem o vírus; vulnerabilidade local amplia o risco
Em 2025, o Brasil confirmou 38 casos de sarampo, dos quais 10 foram importados, 25 relacionados à importação e três tiveram fonte desconhecida. Entre os pacientes, 36 — equivalentes a 94,7% — não tinham histórico vacinal, segundo a nota técnica.
No Tocantins, 25 casos em 2025 foram associados à introdução do vírus por uma família procedente da Bolívia. Uma comunidade tradicional concentrou 22 desses registros, e nenhum dos indivíduos afetados tinha vacinação registrada.
A nota técnica federal também descreveu, no início de 2026, uma criança em São Paulo que havia viajado à Bolívia, uma jovem no Rio de Janeiro que relatou contato com turistas e um residente da Guatemala diagnosticado depois de viajar a São Paulo. Os episódios ilustram o papel da mobilidade internacional na introdução do vírus; a resposta prevista nos documentos oficiais inclui detecção precoce, vigilância, resposta rápida e bloqueio vacinal.
A Anvisa destaca planos de contingência em portos, aeroportos e meios de transporte, além de vigilância sensível e resposta rápida. Nessa pauta, a contribuição da agência está ligada ao controle sanitário de viajantes e de pontos de entrada.
A segunda dose concentra a brecha mensurável
Em 2025, a primeira dose da tríplice viral alcançou 92,66% de cobertura nacional, abaixo da meta de 95%, e a segunda chegou a 78,02%. A meta foi atingida por 64,56% dos municípios na primeira aplicação e por 35,24% na segunda; os dados da Rede Nacional de Dados em Saúde foram atualizados em março de 2026 e podem ser revistos.
Uma revisão Cochrane de 138 estudos, com 23.480.668 participantes avaliou as vacinas combinadas MMR — sarampo, caxumba e rubéola — e MMRV, que também inclui varicela. Para prevenção do sarampo, sete estudos de coorte com 12.039 crianças estimaram efetividade de 95% após uma aplicação, com risco relativo de 0,05 e intervalo de confiança de 95% entre 0,02 e 0,13. Em cinco coortes com 21.604 crianças, a estimativa após duas aplicações foi de 96%, com risco relativo de 0,04 e intervalo de confiança de 95% entre 0,01 e 0,28. A revisão classificou a certeza dessa evidência como moderada.
Como resposta ao risco imediato, o Ministério informou ter destinado 3,2 milhões de doses de tríplice viral para reforçar o abastecimento em São Paulo. A pasta também afirmou que a aplicação adicional prevista para crianças pequenas em contexto de alerta não substitui as aplicações de rotina do calendário.
Limitações exigem leitura além da média nacional
A cobertura administrativa nacional não descreve, por si só, como a proteção se distribui entre territórios e grupos populacionais. Um estudo ecológico brasileiro que analisou municípios e unidades federativas entre 2011 e 2021 encontrou queda de cobertura e homogeneidade desde 2015, com aglomerados de baixa cobertura associados a piores indicadores socioeconômicos e menor cobertura da Estratégia Saúde da Família. Por comparar indicadores agregados, esse desenho não permite atribuir causalidade a indivíduos.
Os autores apontaram limitações nos dados secundários, nas estimativas populacionais, na ausência de campanhas de vacinação na análise e em mudanças nos sistemas de informação do programa de imunização. O resumo acessível da revisão Cochrane não permitiu confirmar financiamento ou declarações de conflito de interesse; no texto acessível do estudo ecológico brasileiro, esses dados também não foram confirmados. Outra revisão, financiada pela Organização Mundial da Saúde, reuniu 56 estudos e encontrou alta heterogeneidade nas estimativas para vacinação antes dos nove meses, reforçando que a aplicação adicional em situação de risco não substitui a rotina.[^1]
[^1]: Revisão sistemática e metanálise sobre vacinação contra sarampo antes dos nove meses.
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