A República Democrática do Congo (RDC) tinha 4.665 casos confirmados e 2.184 mortes por doença causada pelo vírus Bundibugyo em 12 de agosto, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma letalidade bruta de 46,8% entre os casos confirmados — e não uma medida definitiva da gravidade intrínseca do vírus. A OMS classificou o surto como transmissão intensa e o maior já documentado no país.
O agente deste surto é o Bundibugyo, uma espécie distinta do ebolavírus Zaire, para a qual já existem vacinas e anticorpos desenvolvidos em surtos anteriores; para Bundibugyo, ainda não há vacina ou tratamento específico aprovados. A diferença limita o uso direto das contramedidas disponíveis contra Zaire.
Seis províncias afetadas e risco além das fronteiras
O foco inicial em Mongbwalu, na província de Ituri, chegou a 54 zonas de saúde em seis províncias: Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé, Tshopo e Bas-Uélé. O caso identificado em Buta, em Bas-Uélé, iniciou sintomas em 4 de agosto e tinha histórico de viagem a Haut-Uélé.
Entre 1º e 12 de agosto, a RDC acrescentou 1.060 casos confirmados e 597 mortes confirmadas à contagem. A OMS afirma que parte desse salto reflete ampliação da vigilância, da testagem e a reconciliação de bancos de dados, mas atribui a maior parcela à expansão real da transmissão. Na semana epidemiológica de 3 a 9 de agosto, foram registrados 579 casos e 304 mortes, os maiores totais semanais relatados até então. Ituri concentrava 85% dos casos confirmados e 79% das mortes na RDC.
A resposta também enfrenta transmissão associada à assistência: até 9 de agosto, havia ao menos 155 casos confirmados entre trabalhadores da saúde, incluindo 45 mortes. A OMS relaciona esse padrão a falhas de prevenção e controle de infecções fora dos centros especializados, além da exposição na comunidade.
A OMS avalia o risco como muito alto na RDC, alto em Uganda e em países que fazem fronteira terrestre com áreas de detecção do vírus, e baixo no restante da África e no mundo. Rotas comerciais e de mineração, deslocamentos populacionais, conflito e capacidades desiguais de resposta elevam a ameaça regional. Uganda notificou 20 casos e duas mortes ligados a viagens desde a RDC, sem transmissão comunitária relatada; a França identificou um caso importado em junho, sem transmissão secundária até 14 de agosto. A OMS não recomendou fechar fronteiras ou restringir comércio e viagens, e priorizou vigilância, diagnóstico, isolamento e rastreamento de contatos.
No Brasil, não havia caso confirmado na data informada pelo Ministério da Saúde. O país ativou a fase de mobilização do plano de contingência para febres hemorrágicas virais, e a suspeita de Ebola exige notificação imediata, em até 24 horas. A Anvisa também publicou materiais de alerta destinados a viajantes em áreas de desembarque de aeroportos e portos. A medida integra a preparação em pontos de entrada durante a emergência internacional.
Por que Bundibugyo não é Zaire
As duas espécies causam doença pelo vírus Ebola e compartilham formas de transmissão por contato direto com fluidos corporais e materiais contaminados, além de incubação de dois a 21 dias. A transmissão ocorre após o começo dos sintomas e pode ser amplificada em serviços de saúde sem controle adequado de infecção e em funerais inseguros.



