13/10/2026
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Covid longa: estudo associa microbioma a sintomas graves

Estudo com 771 pessoas após internação associa covid longa grave a perfis distintos do microbioma oral e pulmonar, mas não demonstra causa nem tratamento.

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Imagem ilustrativa da reportagem: Covid longa: estudo associa microbioma a sintomas graves

Um estudo publicado no domingo, 11 de outubro, encontrou associação entre covid longa, alterações na microbiota da boca e do escarro e quadros persistentes mais graves após hospitalização. A pesquisa acompanhou 771 adultos no Reino Unido, mas não permite concluir que as bactérias observadas sejam a causa dos sintomas.

O artigo original no European Respiratory Journal integra o PHOSP-COVID, coorte britânica voltada aos efeitos de longo prazo da internação por covid-19. Os participantes haviam sido tratados em 38 hospitais entre fevereiro de 2020 e março de 2021, período anterior ou inicial da vacinação e dominado por variantes diferentes das atuais.

Cinco meses após a alta, os pesquisadores classificaram os participantes em quatro grupos conforme o conjunto de prejuízos físicos, mentais e cognitivos. Um mês depois, coletaram enxágue oral e escarro e usaram sequenciamento do gene 16S do RNA ribossômico para estimar quais comunidades bacterianas estavam presentes. O registro do estudo no PubMed informa que 722 pessoas tinham simultaneamente amostra oral e classificação de gravidade; a idade média desse grupo era 57,5 anos e 38,5% eram mulheres.

Covid longa e microbioma: o que o estudo encontrou

O grupo classificado como muito grave, com comprometimento predominantemente pulmonar, apresentou perfil distinto da microbiota após a covid-19. Menor função pulmonar apareceu associada a um perfil oral específico. Sintomas neurocognitivos persistentes, como dificuldade de memória e concentração, também se associaram à microbiota oral, enquanto sintomas gastrointestinais se ligaram a diferenças encontradas no escarro.

Os autores observaram ainda maior presença relativa de bactérias produtoras de ácido lático entre táxons considerados centrais nas redes microbianas dos participantes com piores desfechos. Essa abundância se associou a concentrações mais altas de proteínas inflamatórias no sangue. Associação significa que os achados ocorreram juntos; não mostra qual fenômeno veio primeiro nem estabelece um mecanismo de doença.

Em linguagem técnica, microbiota é o conjunto de microrganismos de um ambiente, enquanto microbioma pode abranger esse conjunto e seu material genético. A expressão microbioma oral e pulmonar é comum nas buscas e na divulgação científica, mas as amostras do estudo foram obtidas por enxágue da boca e escarro, não por biópsia ou coleta direta de tecido pulmonar.

O projeto PHOSP-COVID acompanha pessoas que precisaram de hospitalização e reúne centros do Reino Unido. Esse desenho amplia a quantidade de dados e permite comparar perfis após a alta, porém limita a aplicação dos resultados a pessoas que tiveram infecção leve, não foram internadas, vivem em outros países ou adoeceram com variantes e níveis de imunidade mais recentes.

O microbioma explica os sintomas da covid longa?

Ainda não. Os próprios pesquisadores destacam que não sabem se as diferenças microbianas já existiam antes da infecção, surgiram durante a internação ou se desenvolveram depois. Medicamentos, antibióticos, dieta, tabagismo, saúde bucal, comorbidades e a gravidade da fase aguda também podem influenciar a microbiota e os sintomas.

A pesquisa não testou tratamento e não demonstra benefício de antibióticos, probióticos, suplementos ou mudanças alimentares. Também não validou um exame capaz de diagnosticar covid longa a partir de saliva ou escarro. Usar antimicrobianos sem indicação pode causar eventos adversos e favorecer resistência; os dados publicados servem para formular hipóteses e planejar estudos longitudinais e ensaios clínicos.

O Ministério da Saúde define condições pós-covid como sinais, sintomas ou condições que persistem ou surgem quatro semanas ou mais após a infecção e não são explicados por outro diagnóstico. Entre as manifestações possíveis estão falta de ar, fadiga, alterações de memória, sono e humor, além de sintomas musculoesqueléticos e gastrointestinais.

A Organização Mundial da Saúde usa uma definição clínica que geralmente considera início em até três meses após a infecção e duração mínima de dois meses. A OMS estima que cerca de seis em cada cem pessoas infectadas desenvolvam a condição pós-covid, embora ressalte ampla variação e incerteza nas estimativas.

O que muda para profissionais e pacientes

Por enquanto, o achado não muda diagnóstico nem tratamento. A avaliação continua baseada em história clínica, duração e impacto dos sintomas, exame físico e investigação de diagnósticos alternativos. O cuidado pode envolver atenção primária e diferentes especialidades, de acordo com manifestações e limitações funcionais; não existe uma terapia única para todos os casos.

A circulação do SARS-CoV-2 também não terminou. O Brasil passou a notificar casos leves de covid apenas depois da confirmação, mudança que exige interpretar séries de vigilância com atenção. Prevenir novas infecções permanece relevante porque cada episódio traz algum risco de condição pós-covid.

Outra frente é a prevenção por vacinas atualizadas e novas plataformas. Uma vacina brasileira de mRNA contra covid avançou à fase 1, mas, como em toda pesquisa inicial, segurança e resposta imune não equivalem a eficácia clínica nem disponibilidade imediata.

O estudo britânico acrescenta uma peça à investigação de por que a covid longa pode atingir pulmões, cognição e trato gastrointestinal ao mesmo tempo. A próxima etapa é verificar se os perfis microbianos antecedem, acompanham ou resultam da doença e se permanecem em populações mais diversas. Até lá, o microbioma é um marcador de pesquisa promissor, não uma explicação causal confirmada nem um alvo terapêutico pronto para uso.

Imagem editorial ilustrativa de pesquisa sobre microbioma e função respiratória. Não retrata participantes, pesquisadores ou hospitais citados na reportagem.

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As referências desta matéria estão disponíveis abaixo para consulta. Informações sobre estudos, medicamentos e políticas públicas devem ser lidas com seu contexto e suas limitações. Leia o método completo.

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5 no total · 5 primárias
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  2. 02
    Fonte primáriapubmed.ncbi.nlm.nih.gov
    PubMed record 42860277

    National Library of Medicine

  3. 03
    Documento oficialphosp.org
    PHOSP-COVID: Post-hospitalisation COVID-19 study

    PHOSP-COVID

  4. 04
    Documento oficialgov.br
    Condições Pós-Covid

    Ministério da Saúde

  5. 05
    Documento oficialwho.int
    Post COVID-19 condition (long COVID)

    Organização Mundial da Saúde

Responsabilidade editorial

Redator e responsável editorial

Douglas Machado é bacharel em Engenharia Civil, redator e responsável editorial do Saúde News, com foco em informação de saúde, contexto e fontes verificáveis.

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