Um estudo publicado no domingo, 11 de outubro, encontrou associação entre covid longa, alterações na microbiota da boca e do escarro e quadros persistentes mais graves após hospitalização. A pesquisa acompanhou 771 adultos no Reino Unido, mas não permite concluir que as bactérias observadas sejam a causa dos sintomas.
O artigo original no European Respiratory Journal integra o PHOSP-COVID, coorte britânica voltada aos efeitos de longo prazo da internação por covid-19. Os participantes haviam sido tratados em 38 hospitais entre fevereiro de 2020 e março de 2021, período anterior ou inicial da vacinação e dominado por variantes diferentes das atuais.
Cinco meses após a alta, os pesquisadores classificaram os participantes em quatro grupos conforme o conjunto de prejuízos físicos, mentais e cognitivos. Um mês depois, coletaram enxágue oral e escarro e usaram sequenciamento do gene 16S do RNA ribossômico para estimar quais comunidades bacterianas estavam presentes. O registro do estudo no PubMed informa que 722 pessoas tinham simultaneamente amostra oral e classificação de gravidade; a idade média desse grupo era 57,5 anos e 38,5% eram mulheres.
Covid longa e microbioma: o que o estudo encontrou
O grupo classificado como muito grave, com comprometimento predominantemente pulmonar, apresentou perfil distinto da microbiota após a covid-19. Menor função pulmonar apareceu associada a um perfil oral específico. Sintomas neurocognitivos persistentes, como dificuldade de memória e concentração, também se associaram à microbiota oral, enquanto sintomas gastrointestinais se ligaram a diferenças encontradas no escarro.
Os autores observaram ainda maior presença relativa de bactérias produtoras de ácido lático entre táxons considerados centrais nas redes microbianas dos participantes com piores desfechos. Essa abundância se associou a concentrações mais altas de proteínas inflamatórias no sangue. Associação significa que os achados ocorreram juntos; não mostra qual fenômeno veio primeiro nem estabelece um mecanismo de doença.
Em linguagem técnica, microbiota é o conjunto de microrganismos de um ambiente, enquanto microbioma pode abranger esse conjunto e seu material genético. A expressão microbioma oral e pulmonar é comum nas buscas e na divulgação científica, mas as amostras do estudo foram obtidas por enxágue da boca e escarro, não por biópsia ou coleta direta de tecido pulmonar.
O projeto PHOSP-COVID acompanha pessoas que precisaram de hospitalização e reúne centros do Reino Unido. Esse desenho amplia a quantidade de dados e permite comparar perfis após a alta, porém limita a aplicação dos resultados a pessoas que tiveram infecção leve, não foram internadas, vivem em outros países ou adoeceram com variantes e níveis de imunidade mais recentes.
O microbioma explica os sintomas da covid longa?
Ainda não. Os próprios pesquisadores destacam que não sabem se as diferenças microbianas já existiam antes da infecção, surgiram durante a internação ou se desenvolveram depois. Medicamentos, antibióticos, dieta, tabagismo, saúde bucal, comorbidades e a gravidade da fase aguda também podem influenciar a microbiota e os sintomas.


