Uma intervenção virtual criada com referências culturais indígenas reduziu indicadores de uso de álcool e cannabis entre jovens adultos indígenas que viviam em cidades dos Estados Unidos. O resultado vem de um ensaio clínico randomizado com 541 participantes, publicado no JAMA Network Open.
O programa, chamado TACUNA, combinou técnicas de entrevista motivacional com atividades como culinária, histórias e oração. A proposta era discutir escolhas, relações e prevenção sem separar o cuidado em saúde dos vínculos culturais e comunitários.
Como o ensaio foi organizado
Os participantes tinham de 18 a 25 anos e se identificavam como American Indian ou Alaska Native. Eles foram distribuídos aleatoriamente entre o TACUNA e um grupo de comparação que recebeu uma única oficina sobre opioides, dor, cultura, saúde e bem-estar.
O TACUNA foi composto por três oficinas e um encontro de bem-estar, todos conduzidos por facilitadores indígenas. A intervenção havia sido desenhada para encontros presenciais, mas migrou para o formato remoto durante a pandemia, o que ampliou a possibilidade de participação a distância.
Pesquisadores aplicaram questionários três, seis e doze meses depois. Os dois grupos relataram menor frequência de cannabis e menos consequências negativas associadas a álcool e cannabis ao longo do acompanhamento. Apenas o grupo TACUNA, porém, informou queda na frequência e na quantidade de álcool consumido e na quantidade de cannabis usada.
Participantes do programa também relataram redução maior de sintomas de ansiedade e menos tempo ao lado de pessoas que usavam cannabis ou heroína. A percepção de conexão cultural foi mantida nos dois grupos durante o ano.
O componente cultural não é um detalhe
Intervenções de prevenção desenvolvidas para a população geral nem sempre incorporam história, identidade e redes de apoio de comunidades específicas. O TACUNA partiu de trabalhos anteriores sobre entrevista motivacional e da associação entre conexão cultural, menor uso de substâncias e melhor saúde mental.
Essa combinação pode ter aumentado relevância e adesão. Também mostra que atendimento remoto não precisa significar conteúdo genérico: o formato digital pode transportar uma intervenção desenhada com a comunidade.
Limites importantes
Consumo de substâncias e sintomas foram informados pelos próprios participantes, o que pode sofrer influência de memória e expectativa. O grupo de comparação também recebeu uma atividade, e melhorou em alguns desfechos; portanto, o resultado não equivale a ausência total de efeito fora do TACUNA.
A pesquisa foi feita com povos e organizações indígenas dos Estados Unidos. Povos indígenas não formam um grupo cultural único, e os resultados não podem ser transferidos automaticamente para comunidades brasileiras ou para outras populações.
O ensaio avalia um programa de prevenção, não um tratamento isolado para dependência grave. Ainda será necessário estudar implementação, custo, adesão fora da pesquisa e quais componentes produziram o efeito.
Mesmo com essas cautelas, o estudo oferece evidência experimental de que prevenção culturalmente fundamentada pode funcionar também por via remota — uma possibilidade relevante para pessoas que vivem longe de serviços especializados ou de suas comunidades de origem.
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