A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou nesta terça-feira, 20 de outubro, a primeira avaliação global abrangente das desigualdades dentro dos países relacionadas às doenças crônicas não transmissíveis. O relatório compara quem está mais exposto a fatores de risco e quem consegue acessar prevenção, diagnóstico e tratamento — diferenças que uma média nacional pode esconder.
O relatório global da OMS reúne nove bases multicêntricas e analisa 35 indicadores, desagregados por até oito dimensões, entre elas sexo, idade, renda, escolaridade e local de residência. O documento tem 185 páginas e identifica lacunas de dados comparáveis sobre deficiência, emprego e migração, o que limita conclusões para alguns grupos.
O que são doenças crônicas não transmissíveis
As doenças crônicas não transmissíveis, também chamadas de DCNT, não são transmitidas entre pessoas e geralmente exigem prevenção e cuidado contínuos. A análise da OMS cobre quatro grupos principais: doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e doenças respiratórias crônicas. Também acompanha cinco conjuntos de fatores de risco: tabaco, álcool, obesidade e alimentação não saudável, atividade física insuficiente e poluição do ar.
Na Região das Américas, a Opas informa que doenças crônicas e incapacidade passaram de 38% da perda total de saúde em 2000 para 44% em 2023. A leitura regional reforça que pressão arterial elevada, glicose alta, excesso de peso, alimentação inadequada, inatividade física, tabaco e álcool afetam mais de um desfecho e aumentam a necessidade de cuidado longitudinal.
Essa combinação já apareceu em análises do Saúde News. Um modelo sobre controle da pressão arterial estimou o possível efeito de ampliar diagnóstico e tratamento em 20 países, mas dependeu de premissas e não substitui resultados observados. O novo relatório acrescenta uma pergunta operacional: a melhoria chega com a mesma intensidade a todos os grupos?
Quais desigualdades em saúde a OMS encontrou
Segundo o comunicado que apresenta os resultados, dados de países de renda baixa e média indicam maior frequência de hipertensão e diabetes em populações com menor escolaridade. Mulheres mais pobres ou menos escolarizadas tendem a ter menor cobertura de rastreamento do câncer do colo do útero, enquanto o tabagismo é mais frequente entre homens menos escolarizados.
O território também altera o acesso. Em vários desses países, moradores de áreas rurais têm menor cobertura de diagnóstico e tratamento da hipertensão e de rastreamento cervical. Domicílios rurais podem enfrentar mais poluição intradomiciliar; populações urbanas, mais poluição externa. Uma análise global sobre PM2,5, ozônio e dióxido de nitrogênio ajuda a contextualizar por que tipo e local da exposição precisam ser distinguidos.
A OMS também encontrou diferenças por sexo e idade. Homens apresentaram mais consumo de tabaco e álcool e menor probabilidade de diagnóstico e tratamento quando tinham hipertensão. Mulheres registraram menos atividade física suficiente e mais obesidade, sobretudo em países de renda baixa e média. Adultos mais jovens com hipertensão tiveram menor probabilidade de diagnóstico e tratamento que os mais velhos.
Esses padrões descrevem associações agregadas e não são universais. O próprio relatório ressalta que direção e tamanho das diferenças mudam conforme país, indicador e grupo. Eles não permitem atribuir a condição de uma pessoa à renda, ao sexo, à idade ou ao local onde vive, nem demonstram que uma dessas características isoladamente causou a doença.
Como usar dados de DCNT no planejamento em saúde
Para equipes de vigilância e gestores, a implicação é cruzar cobertura e desfechos com território e características sociais, preservando privacidade e qualidade estatística. Uma taxa municipal de hipertensão controlada, por exemplo, pode parecer adequada mesmo com baixa cobertura em uma área rural, entre adultos jovens ou em um grupo com barreiras de deslocamento. Indicadores desagregados ajudam a localizar onde investigar acesso, registro e continuidade do cuidado.
No Brasil, o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das DANT 2021–2030 orienta promoção da saúde, atenção integral, vigilância e prevenção. Entre as metas estão reduzir em um terço a mortalidade prematura por DCNT, conter a obesidade, ampliar atividade física e alimentação adequada e reduzir tabagismo, álcool e impactos da poluição atmosférica.
O cenário regional oferece outro ponto de comparação: a Opas estimou potencial de evitar quase 40% da perda de saúde nas Américas, mas o percentual é um benchmark populacional, não uma promessa de resultado para cada país. Planejamento exige considerar capacidade da rede, atenção primária, financiamento, prevenção, diagnóstico oportuno e seguimento.
Limitações do novo relatório
A avaliação usa dados nacionais coletados principalmente ao longo da última década, com cobertura desigual entre indicadores e países. Não é um ranking, não mede causalidade e não apresenta, no resumo público, uma estimativa exclusiva para o Brasil. Comparações também podem ser afetadas por diferenças de pesquisa, registro, período e definição dos indicadores.
O ganho central está no método: acompanhar a média sem abandonar a distribuição. Para profissionais da saúde, o documento serve como referência de vigilância e organização de serviços, não como protocolo clínico nem orientação individual. Decisões sobre rastreamento, diagnóstico ou tratamento devem seguir diretrizes aplicáveis e avaliação profissional.
Imagem editorial ilustrativa sobre vigilância das doenças crônicas não transmissíveis e desigualdades de acesso. Não representa pacientes reais, diagnóstico individual ou resultado específico do Brasil.
Conteúdo informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Encontrou um erro? Fale com a redação.