Em São Paulo, 182 dos 488 pacientes avaliados para a primeira cirurgia bariátrica laparoscópica foram classificados com obesidade pré-clínica pela nova estrutura da Comissão Lancet, ou 37,3% da coorte local. No conjunto de quatro centros, a proporção foi de 26,2%, ou 607 entre 2.316 pessoas, enquanto 73,8% preencheram os critérios operacionais de obesidade clínica no estudo. Leia o artigo no JAMA Network Open
Quatro centros, um deles no Brasil
A pesquisa revisou retrospectivamente prontuários, auditorias e coortes de adultos submetidos à primeira cirurgia bariátrica por laparoscopia — bypass gástrico em Y de Roux ou gastrectomia vertical — entre janeiro de 2014 e dezembro de 2025. Participaram quatro serviços terciários de alto volume: Londres, Barcelona, Lille e o Center for Obesity and Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. O desenho e os critérios de inclusão estão descritos no estudo
A coorte brasileira correspondeu a 21,1% da amostra total: foram 306 pessoas classificadas com obesidade clínica e 182 com obesidade pré-clínica. A proporção de casos clínicos em São Paulo, de 62,7%, foi a menor observada entre os quatro centros; as proporções publicadas foram de cerca de 79,3% no Reino Unido, 77,0% na França e 72,5% na Espanha. Os resultados por centro constam nas tabelas do artigo
Essa diferença não permite concluir que brasileiros tenham menos obesidade clínica do que europeus. Os centros mantiveram os dados individuais localmente e compartilharam apenas resultados agregados, e os autores informam que não fizeram testes estatísticos diretos entre países ou serviços. Além disso, 78,9% dos participantes vieram de três centros europeus, e o estudo incluiu apenas um serviço brasileiro, localizado em uma única cidade. As limitações da comparação internacional são reconhecidas pelos pesquisadores
Portanto, os 37,3% observados em São Paulo descrevem uma coorte selecionada para cirurgia metabólica e bariátrica, não a população brasileira nem a sul-americana. Para contraste, o Vigitel estimou obesidade por IMC igual ou superior a 30 kg/m² em 25,7% dos adultos residentes nas capitais e no Distrito Federal em 2024, a partir de peso e altura autorreferidos; o inquérito não mede obesidade clínica ou pré-clínica pelos critérios Lancet. Veja a série do Vigitel 2006-2024
O que muda com os novos rótulos
A proposta da Comissão Lancet separa a obesidade em duas situações. A obesidade clínica exige excesso de adiposidade acompanhado de disfunção objetiva em órgãos ou tecidos atribuível à adiposidade, ou de limitação importante em atividades cotidianas. A pré-clínica mantém o excesso de adiposidade, mas sem essa disfunção detectável na avaliação atual, embora o risco futuro possa variar entre as pessoas. A definição foi publicada pela Comissão Lancet
Na prática, a estrutura não transforma automaticamente quem tem obesidade pré-clínica em alguém “sem obesidade”. Ela altera, sobretudo, quem recebe o rótulo de caso clínico de obesidade. No estudo cirúrgico, os pesquisadores aplicaram a definição de modo retrospectivo e pragmático, porque os bancos de dados haviam sido formados antes da publicação da Comissão. Eles usaram 18 domínios baseados em diagnósticos registrados, exames laboratoriais, imagens, medicamentos e anotações clínicas. A operacionalização retrospectiva está detalhada no artigo


