13/10/2026
Saúde NewsNotícias de saúde com contexto e evidência

Pesquisa

Caquexia no câncer: estudo mapeia perda de peso em 52 mil pacientes

Pesquisa na Nature Medicine acompanha episódios de perda de peso, exames e mutações tumorais; modelo ainda não é ferramenta clínica nem define tratamento.

Por5 min
4 fontes checadas
Compartilhar no WhatsApp — abre em nova guia
Imagem ilustrativa da reportagem: Caquexia no câncer: estudo mapeia perda de peso em 52 mil pacientes

A caquexia no câncer foi mapeada em 52.236 adultos a partir de 1,74 milhão de registros de índice de massa corporal, exames laboratoriais, imagens e dados genéticos dos tumores. O estudo, publicado em 12 de outubro de 2026 na Nature Medicine, descreve quando episódios de perda de peso surgiram e quais sinais os acompanharam.

No artigo científico, pesquisadores do Memorial Sloan Kettering Cancer Center analisaram informações coletadas entre 2010 e 2024 no protocolo de sequenciamento MSK-IMPACT, que reuniu 589 tipos histológicos.

O algoritmo procurou janelas de seis meses com perda de pelo menos 5% do peso, ou de pelo menos 2% quando o IMC inicial era inferior a 20 kg/m². Esses critérios identificam perda de peso compatível com a definição consensual de caquexia, mas não revelam automaticamente sua causa nem substituem avaliação clínica.

Caquexia no câncer apareceu em episódios que podem se repetir

A equipe encontrou 30.938 episódios em 46,63% dos pacientes. Entre quem apresentou ao menos um, 22,56% tiveram recorrência. A perda média nos intervalos identificados foi de 10,45%.

Os eventos não formaram apenas uma queda contínua até o fim da vida. Eles podiam começar, terminar e voltar ao longo do tratamento. Segundo o comunicado do Memorial Sloan Kettering, tumores pancreáticos e gástricos mostraram episódios mais precoces, enquanto outros padrões ficaram concentrados em fases posteriores.

Em 17 dos 18 grupos de câncer com pelo menos 500 pacientes, a progressão identificada por imagem coincidiu com os episódios mais que o esperado ao acaso. Perda de peso também foi associada a menor sobrevida. Isso não demonstra que o emagrecimento causou progressão ou morte.

O que é caquexia e por que ela não é emagrecimento comum

O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos define a caquexia como uma síndrome de desgaste que envolve fraqueza, fadiga e perda de músculo e gordura. Diferentemente de uma redução de peso causada apenas por menor ingestão, ela inclui alterações inflamatórias e metabólicas e não é totalmente revertida somente com suporte nutricional.

Perda involuntária de peso, redução do apetite, cansaço e fraqueza merecem ser relatados à equipe oncológica, mas têm diversas causas. Náuseas, dor, dificuldade para engolir e efeitos do tratamento mudam peso e alimentação. Um valor isolado na balança não confirma caquexia nem mede massa muscular.

O manual de cuidados paliativos do Instituto Nacional de Câncer orienta avaliação clínica nutricional contínua e individualizada. O documento combina perda de peso, ingestão, funcionalidade e alterações laboratoriais para classificar o quadro e planejar cuidados, em vez de tratar todos os pacientes pelo mesmo número.

Exames de sangue e mutações indicaram associações, não diagnóstico

Durante os episódios, diferentes cânceres compartilharam um padrão laboratorial: albumina e hemoglobina mais baixas, enzimas hepáticas elevadas e aumento de leucócitos e neutrófilos. Parte das mudanças era sutil e alguns valores permaneciam na faixa de referência. Por isso, o estudo não propõe interpretar um desses exames isoladamente como teste de caquexia.

A análise genômica encontrou 34 associações entre 23 mutações e o risco de episódios em 14 tipos de câncer. Alterações em TP53 foram associadas a maior risco em vários tumores; no adenocarcinoma de pulmão, STK11 também apareceu, enquanto SMAD4 e KRAS se associaram a risco mais alto no câncer colorretal. Esses resultados persistiram em parte das análises ajustadas, mas não provam que cada mutação provoque o desgaste.

Modelo de risco teve precisão moderada e não está pronto para uso

Os autores combinaram estágio da doença, capacidade funcional, IMC e dados genéticos em modelos para adenocarcinomas de pulmão, colorretal e próstata. Os índices de concordância ficaram entre 0,639 e 0,670, desempenho classificado pelos próprios pesquisadores como moderado. A validação externa usou dados de 5.785 pacientes do Dana-Farber Cancer Institute, mas o modelo reduzido aplicado externamente concentrou-se no câncer de pulmão.

A pesquisa ainda não pode virar calculadora clínica ou gatilho de tratamento. A amostra veio de centros especializados dos Estados Unidos e de pessoas submetidas a sequenciamento tumoral; o desempenho precisa ser testado em outras populações, inclusive no Brasil.

O Saúde News acompanha mudanças terapêuticas em tumores incluídos na análise, como a aprovação do atezolizumabe adjuvante para um perfil de câncer de cólon e a oferta gradual de medicamentos para câncer de pulmão no SUS. O novo modelo de caquexia não altera essas indicações nem informa acesso a terapias.

O que muda no acompanhamento de perda de peso no câncer

O principal ganho imediato é mostrar quanto dado útil existe na rotina: pesos seriados, sintomas, capacidade de realizar atividades e exames já coletados podem revelar trajetórias que uma consulta isolada não mostra. Registrar o peso ao longo do tempo e investigar mudanças involuntárias ajuda a equipe a reconhecer problemas nutricionais e funcionais mais cedo.

O cuidado pode envolver oncologia, nutrição, enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia e controle de sintomas, conforme a necessidade. Isso não significa prescrever suplementos, estimulantes de apetite ou exercícios por conta própria. A síndrome é multifatorial, e a conduta precisa considerar tumor, tratamento, deglutição, função dos órgãos, inflamação, objetivos do cuidado e preferências do paciente.

O estudo não resolveu a causa de cada episódio. A perda de peso pode refletir menor ingestão, inflamação, metabolismo tumoral, tratamento ou uma combinação. O IMC não distingue músculo, gordura e líquido.

A pesquisa cria um atlas para novas hipóteses e ensaios, não um novo diagnóstico ou tratamento. Para pacientes e familiares, a mensagem prática é comunicar cedo perda involuntária de peso, apetite reduzido, fraqueza ou dificuldade para comer. Para profissionais, é acompanhar a trajetória e interpretar sinais em conjunto, sem esperar que um único exame explique a caquexia.

Imagem editorial ilustrativa sobre acompanhamento de peso, força e nutrição durante o cuidado oncológico. Não retrata participantes, instituições ou dados reais do estudo.

Transparência desta reportagem

4

fontes consultadas

3

fontes primárias ou oficiais

As referências desta matéria estão disponíveis abaixo para consulta. Informações sobre estudos, medicamentos e políticas públicas devem ser lidas com seu contexto e suas limitações. Leia o método completo.

Fontes desta reportagem

4 no total · 3 primárias
  1. 01
  2. 02
  3. 03
    Documento oficialcancer.gov
    Cancer Cachexia

    National Cancer Institute

  4. 04

Responsabilidade editorial

Redator e responsável editorial

Douglas Machado é bacharel em Engenharia Civil, redator e responsável editorial do Saúde News, com foco em informação de saúde, contexto e fontes verificáveis.

Formação, perfil e contato editorial →

Conteúdo informativo — não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Encontrou um erro? Fale com a redação.

Continue lendo

Outras reportagens

Boletim Saúde News

A edição do dia, sem ruído

Entre na lista de lançamento do boletim diário. Para acompanhar agora, use o RSS geral ou escolha uma editoria.

Google Notícias

Dê prioridade ao Saúde News

Adicione o Saúde News às suas fontes preferidas para aumentar a chance de nossas reportagens aparecerem em destaque na sua experiência do Google.