Uma pesquisa apresentada nesta segunda-feira, 14 de setembro, colocou a saúde mental dos jornalistas na pauta do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional. O levantamento da Fundacentro, realizado com apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), identificou sintomas de sofrimento psíquico e situações de violência no trabalho. Os números descrevem os participantes, não toda a categoria.
Capa ilustrativa gerada por IA; as pessoas e a redação retratadas são fictícias.
Segundo o relatório técnico da pesquisa, 50,2% dos 257 participantes apresentaram sintomas de depressão, 35,8% de ansiedade e 47,9% de insônia. São resultados de questionários e escalas de sintomas: não equivalem à confirmação de diagnósticos individuais em consulta médica.
O que aparece no ambiente de trabalho
A divulgação da Fenaj destaca que o assédio moral foi identificado em proporções de 26,1% a 37%, conforme o critério adotado. Já o indicador de cyberbullying alcançou 30,4%. Os dois percentuais de assédio moral não devem ser somados: representam formas diferentes de analisar o mesmo conjunto de respostas.
Outro achado foi a percepção de baixo apoio social no trabalho, registrada em 61,1% da amostra. Esse indicador diz respeito às relações com colegas e supervisores. A federação defende medidas nas empresas de comunicação e ações de prevenção dos riscos psicossociais, associando a proteção dos profissionais às condições em que a informação é produzida.
Como interpretar os resultados
A coleta ocorreu de dezembro de 2024 a outubro de 2025, por formulário online. Os convites foram enviados a jornalistas ligados à Fenaj, que também podiam convidar colegas. Esse recrutamento por conveniência e indicação, conhecido como bola de neve, não corresponde a um sorteio representativo de todos os profissionais brasileiros.
O relatório reconhece duas limitações centrais: a amostra restringe a generalização dos resultados, e o desenho transversal não permite estabelecer causa e efeito. Assim, não é possível concluir que metade de todos os jornalistas tenha depressão, nem atribuir os sintomas de uma pessoa exclusivamente ao emprego.
Os dados funcionam como um alerta para a população estudada e como ponto de partida para novas investigações. A Fenaj informou que uma segunda fase prevê entrevistas em profundidade. Ouvir as experiências dos participantes pode complementar os números, mas não elimina automaticamente as limitações da primeira etapa.
Prevenção precisa alcançar a organização do trabalho
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece jornadas excessivas, baixa autonomia, insegurança no emprego, violência e apoio insuficiente como riscos psicossociais. Eles não são exclusivos do jornalismo. Por outro lado, um trabalho com condições adequadas pode oferecer renda, vínculos sociais e senso de propósito, contribuindo positivamente para a saúde mental.
A orientação da organização é avaliar e reduzir riscos no próprio ambiente profissional, com participação dos trabalhadores. Isso pode envolver revisão das condições de trabalho, mecanismos para enfrentar violência e assédio e preparação das chefias para reconhecer sofrimento e oferecer apoio. A responsabilidade preventiva, portanto, não se resume à capacidade individual de suportar pressão.
As diretrizes da OMS sobre saúde mental no trabalho também incluem formação de gestores e trabalhadores e apoio ao retorno de pessoas afastadas. São recomendações gerais, que precisam considerar cada contexto. O estudo brasileiro não testou a eficácia de uma intervenção específica nem anunciou um tratamento novo.
Para o público, a distinção principal é entre reconhecer um sinal coletivo de preocupação e diagnosticar pessoas por uma estatística. Sintomas persistentes que prejudicam sono, relações ou atividades merecem avaliação individual por um profissional de saúde. Melhorar as condições de trabalho e garantir acesso ao cuidado são frentes complementares.
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